Thursday, August 30, 2007

Cenas da Vida Quotidiana

Aqui vão mais algumas particularidades desta Incredible India! Muitos destes detalhes já são tão habituais para mim que já nem os estranho e por vezes nem acho que sejam dignos de ser contados, mas nada poderia estar mais longe da verdade.

Comecemos pelo que está mais enraizado na cultura indiana: a total incapacidade de dar uma resposta negativa seja a quem for. Resultado disto: estão constantemente a mentir. Isto, quando aliado ao facto de terem uma extrema dificuldade em trabalhar, toma proporções épicas. Passemos aos exemplos práticos:

Já aqui falei que o meu prédio tem um serviço de lavandaria. Pois bem, o processo de recolha e entrega da roupa é muito complicado. Quem me dera que pudesse eu ir lá entregar a roupa e ficar logo despachadinha. Mas não, temos que ligar para eles e dizer que queremos. Ao que eles respondem: coming, m’am! Quando uma pessoa ouve isto, pensa que no máximo, em 10 minutos nos estão a tocar à campainha. ERRO! Passado meia hora ligamos outra vez: coming m’am! Vinte minutos depois ligamos de novo aos berros. Yes m’am coming now! E Passados dois minutos estão-me a tocar à campainha. Ora, se não tinha sido mais proveitoso para todos, dizerem-me logo que só podiam daí a uma hora??? Isto também nos remete para outra questão: o facto deles ainda não terem perdido o estigma de colonizados e só funcionarem quando se é mal educado para eles.

Outra: os meus phones estragaram-se e fui comprar outros. Entrei na loja (loja=barraca no meio da rua) e perguntei se tinham. Not in stock, m’am, tomorrow. Como combinado, fui lá no dia seguinte. Ora cadê phones? Recebi a mesma resposta do dia anterior. E se lá voltasse todos os dias, todos os dias teria a mesma resposta. E exemplos como este, aplicados às mais diversas situações, não faltam só que conta-las seria uma seca para todos.

Um exemplo muito claro do facto de eles não gostarem nada de trabalhar passa-se no meu laboratório. O horário de trabalho na Índia é das 9 às 5, nem um minuto a mais. Ate aqui tudo bem, só que no laboratório onde estou a trabalhar às 4:20 já estão a dizer para eu desligar as coisas. Lá se vai a teoria de trabalhar uma hora a mais todos os dias e ter fins-de semana de três dias.

A palavra dita mais frequentemente por toda a gente é “boss”. Aqui toda a gente é boss (menos as senhoras que são m’am ou madam), sejam empregados ou clientes. Quando queremos chamar o empregado do restaurante é sempre boss e ele também responde sempre, yes, boss. Os técnicos do laboratório, os funcionários da biblioteca ou os empregados das lojas também são todos boss. Disto resulta que a expressão mais ouvida por nós seja: tomorrow, boss!

A rede pública de telecomunicações chama-se STD, isto significa que os telefones públicos que se encontram espalhados pelas mais diversas lojas ou quiosques têm uma tabuleta a dizer STD. Ora, isto para a língua portuguesa não é nada, mas em inglês é a sigla para doença sexualmente transmissível. Tudo o que sejam inglês, americanos ou australianos acham uma certa piada. O que é certo é que eu acho que se se utilizar muito estes telefones existe mesmo uma grande probabilidade de apanhar uma STD!





Passemos aos episódios cómicos que acontecem pontualmente.



- ao pé do meu prédio existe uma obra. Um destes dias, quando estava a passar por lá e os operários estão a ouvir nada mais nada menos que Ozzy Osbourne!! Mama, I’m coming home……



- já apanhei um rikshaw quitado!! Pimp my rikshaw! Tinha um rádio todo xpto, com um belo subwoofer (ou lá com isto se escreve…) e fomos a curtir uma ganda som até casa (ganda som = musica de dança indiana)



- A pergunta “whitch country?” elevou-se a outro patamar. O jantar de despedida de um dos gajos que se vai embora, calhou no mesmo que dia que o grande embate Índia – Inglaterra em criquete. Isto é importante porque o criquete é o futebol da Índia e porque um jogo com a Inglaterra é sempre um jogo colonizador-colonizado eles levam isso muito a sério. Isto significa que o restaurante estava a arrebentar pelas costuras. No final do jantar, quando fomos buscar as sobremesas, um indiano, que já devia estar farto de nos ver passar, interpela-me a mim e ao inglês e faz a seguinte pergunta: Where do all you white people come from?
A minha reacção imediata foi responder Africa, mas como hesitei em responder, perdia a piada, então acabamos por explicar tudo como deve ser.



- chegou mais um americano. Um país tão grande como os EUA, era de esperar que tivesse uma grande variedade de nomes, no entanto este também é Nick. Ou seja, três americanos, três Nicks. Eles devem ter alguém a controlar as saídas do país. A partir de agora só saem Nicks!

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